A Criança Ferida e o Amor Possível

Dos meus estudos com duas grandes referências: Dr. Diogo Lara (@diogolaraoficial) e Emanuel Aragão (@emanuelaragaoreal), surgiu a inspiração para a síntese que segue acerca de um tema que em parte é autobiográfico.

A ameaça ou a efetiva violência contra crianças, especialmente quando praticadas por seus pais, de forma deliberada ou inadvertida, provoca um forte impacto emocional que é interpretado por seu cérebro imaturo como um risco à sua sobrevivência.



Isso faz com que algumas crianças adotem uma postura mais retraída e desconfiada, que é reforçada na medida em que a redução do contato com outras pessoas reduz a tensão provocada pelo medo de ser, de novo, machucada (no sentido amplo e subjetivo do termo). Assim, por repetição, essas crianças vão crescendo isoladas, sozinhas, com medo e reativas. Esse é o perfil comportamental que mais vira alvo de estranhamento, discriminação e bullying. O que aumenta seus sentimentos de ameaça e não pertencimento, tornando-se um ciclo vicioso que pode resultar em ansiedade crônica e depressão. Quando essa situação perdura por tempo suficiente para acompanhar essas crianças até a vida adulta, passa-se a nomear suas condutas como "personalidade". Um rótulo que ignora sua história e todos os momentos, sentimentos, contextos e contatos que ela teve a partir da quebra do vínculo parental. 

O uso da expressão "risco à sua sobrevivência", no primeiro parágrafo, pode soar exagerado e dramático, mas o sentimento de não estarem protegidas por seus pais durante a infância é sentido assim, por programação filogenética, quando somos pequenos e ainda precisamos das figuras de proteção para um desenvolvimento saudável. 

Uma saída possível na infância, quando essas crianças não são capazes de compreender as razões e motivações da agressão ou negligência de seus pais, é a construção de um "ideal do eu". Na tentativa de retornar ao amor incondicional que tinham quando eram recém nascidas, essas crianças criam fantasias como forma de se livrarem da culpa que o narcisismo (ser o centro do mundo e a razão de tudo o que lhes acontece) as impõe, acreditando que se foram agredidas ou negligenciadas por seus pais é porque "fizeram alguma coisa de errado". 

Essa fantasia, de forma simplista, se divide entre tentar manter o vínculo e se adequar por imitação e espelhamento do comportamento dos pais; ou tentar romper o vínculo por antagonismo, o que termina sendo visto pelos pais como rebeldia. 

Enquanto da primeira opção resultam comportamentos de retração e proteção, do segundo resultam comportamentos de expansão e afastamento. Mas a base de ambos ainda é uma tentativa de retorno ao amor incondicional. O que não acontece (pois não é possível voltar a ser tão dependente como quando eram recém nascidos), gerando assim, uma repetição compulsiva da estratégia adotada que se instala no inconsciente e passa a ditar o comportamento. 

Para as crianças que escolhem "ficar", as situações sucessivas de agressão ou negligência paternas e a reação de espelhamento e busca compulsiva por adequação geram, principalmente, medo, raiva e culpa. Enquanto para quem escolhe "fugir", a busca compulsiva por libertação gera, principalmente, impulsividade, vergonha e culpa. Ressaltando que em ambas as situações, a necessidade de lutar e fugir tem como pano de fundo a necessidade de "ser amado", que não encontra satisfação pois quem fica ou foge nunca mais é visto, notado ou de fato amado como gostaria, ou seja, como foi quando era uma criança indefesa e tinha todas as suas necessidades atendidas a seu tempo. 

Na vida adulta, essas crianças fantasiam que o "amor romântico" poderia ser uma saída possível para preencher esse lugar e esse vazio. E passam a buscar alguém que vá lhes amar incondicionalmente e satisfazer todas as suas necessidades. 

Para aquelas que escolheram quando crianças ficar e se proteger, a relação romântica na vida adulta tem uma importância fundamental, pois é mais difícil para esse perfil se abrir e confiar. Então, quando o faz, deposita expectativas muito altas na relação, muitas vezes adotando comportamentos de demanda e exclusividade sufocantes, que terminam por afastar o outro. Essa profecia auto realizada nasce do instinto de proteção e da confusão entre o amor romântico e o amor incondicional que, juntas, tornam a relação amorosa insuportável para o outro e refaz o contexto compulsivo de nunca satisfazer as necessidades de quem demanda. 

Por outro lado, aquelas que escolheram fugir na infância, às vezes adotam na vida adulta uma postura de pouco compromisso e aversão a qualquer regra ou acordo de convivência, tornando suas relações românticas instáveis e inseguras para o outro. Essa necessidade de fugir, que sempre pede mais espaço e liberdade, termina por deixar as relações rasas e frágeis, alimentando a compulsão por um amor incondicional que não consegue ser substituído por um amor real. 

Em comum, a falta de cuidado e proteção parentais na infância inviabiliza o luto narcísico, ou seja, a superação da necessidade da criança de ser o centro exclusivo de atenção e cuidado, pois esta se sente sempre ameaçada. 

Uma solução possível é encontrar meios de transformar a necessidade de amor incondicional em uma necessidade de "amor real". Para isso é preciso se deslocar da posição rígida e permanente de "ser cuidado" e se permitir atuar também na posição de "cuidador". Desta forma, será possível treinar o compartilhamento da dominância e a troca saudável e equilibrada de afetos, entendendo que o outro não é mais apenas um objeto de desejo, pronto a satisfazer todas as suas necessidades, mas sim alguém que precisa alternar entre essa posição de objeto e sujeito (que também tem seus afetos e necessidades). 

É alternando na posição central desses dois mundos que se tem a chance de ser cuidado e cuidar. Quem é capaz de se relacionar a partir de suas forças e fraquezas, compartilhando seus sentimentos e experimentando a relação com o outro, perceberá que seus afetos também afetam outros sujeitos e que, na maior parte do tempo, todos estão fazendo o seu melhor para encontrar um amor possível que ocupe o lugar do amor incondicional e traga paz e tranquilidade.

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