Saúde e Doença na Era Pós ManicomialA Camisa de Força da Cultura


“Louco” é quem ousa desconfiar (de modo inconsciente ou deliberado; racional ou irracional) do que é material, visível e “real”. Desconfiar dos dogmas, das leis e da ordem econômica vigentes, que levaram o grupo social do qual faz parte ao equilíbrio e à colaboração mútua, estando todos esses fatores causais e suas consequências, abraçados pela camisa de força da cultura do lugar onde ele vive.

Cultura esta que define, de forma objetiva e impositiva a partir de seus acordos tácitos e implícitos, a utilidade (papel social) dos indivíduos que lhe constituem, determinando o conceito de cidadania que se expressa na maneira como devem: produzir (contribuição individual); se relacionar (status); existir e se expressar; se vestir e se “comportar”; se definir e se moldar; etc.

Essa desconfiança, quando latente e duradoura, vai provocando um desencaixe do indivíduo em relação ao seu “eu” social até, por fim, apartá-lo de seu papel social, destituindo sua utilidade perante o grupo. Essa desconexão do “normal” o torna um estranho em sua própria cultura e esse estranhamento é percebido pelos outros, que então dividem-se entre: pressioná-lo para que se “cure”; ou, quando entendem que não há meios para devolvê-lo ao “normal”, passam a isolá-lo e rotulá-lo de “Louco”.

Tudo o que foge à camisa de força da cultura é considerado “anormal” ou “doente”, enquanto o que está integrado e confortavelmente contido nela é considerado normal e saudável. Isso fragmenta a sociedade em duas, cabendo aos “normais” o privilégio de habitar livremente as suas “caixas”, com seus limites e formas bem definidos; enquanto aos “anormais” cabe o vazio dos excluídos ou doentes, tangibilizados em forma de prisões, manicômios, hospitais e alas psiquiátricas.

Desta forma, não é o que está contido pela camisa de força da cultura que precisa ser “tratado” ou “curado”. É o que está “desencaixado” que precisa ser excluído, isolado ou afastado. É o “normal” que precisa de cercas e muros para se proteger da contaminação pela “loucura”, cujos sintomas podem desagregar o que está muito bem contido.

A preservação da “razão inconteste” é o objetivo a ser perseguido pelos que vestem a camisa de força da cultura. E a todos que queiram negar a “loucura” e fugir do isolamento, deve ser oferecido o “tratamento” ou “treinamento” adequado. Quando há esperança ou interesse, isso se dá em clínicas psiquiátricas particulares, financiadas por quem pode pagar. Mas quando não há recursos ou se desconfia que a loucura seja permanente, em muitos casos o tratamento ganha contornos de condenação perpétua à inutilidade (perante a sociedade) e os destinos dos “loucos inúteis” são os manicômios e hospitais psiquiátricos, com suas condutas paliativas e desprovidas de sensibilidade, onde se enxerga a doença mental antes do ser humano e se aproveita da alienação do paciente como motivo para maus tratos, abandono e negligência.

Há ainda os “loucos úteis” que, esporadicamente, podem não se encaixar na cultura, pois tem meios para se despir das suas amarras e buscar uma inspiração mais livre e “menos lúcida”, com poder para financiar inovações que promovem mudanças (nem sempre evolutivas) e geram alterações nos comportamentos e no modo de vida, esgarçando o tecido social sem rasgá-lo. Muitos deles são elevados à categoria de astros, gozando de uma influência e status que os blinda do rótulo da loucura, mesmo estando tão desencaixados das expectativas em relação ao seu papel social.

Para lidar com os “loucos inúteis” as ciências - médica, psiquiátrica e psicológica - determinam os “tratamentos” por meio dos quais esses “descamisados”, à semelhança dos bárbaros da idade média, podem ser “conduzidos” de volta pela ponte levadiça até a segurança do considerado “normal” ou “saudável”, retornando ao lugar de onde um dia se viram desencaixados.

Na maior parte do tempo, quem está “dentro” se utiliza de sua utilidade para justificar sua posição, imbuindo-se de um status de pertencimento ao “normal” que lhe autoriza a condenar ao exílio os que estão “fora” e que não se encaixam ou não podem ser úteis à manutenção do tecido social da camisa de força da cultura. Este conflito é dinâmico e se atualiza constantemente pelas trocas entre os integrantes do grupo social e destes com outras culturas, mas cuja atualização sempre sofre algum nível de censura pela “normalidade”. E quanto mais apertadas são suas amarras, mais lento é esse processo.

Desta forma, a camisa de força da cultura é dotada de um tecido orgânico, de renovação e maleabilidade variáveis, que pode ser mais ou menos permeável à mudança de seus conceitos e normas.

Em um certo ponto, fica difícil discernir quem tem a “razão”. Quem está “dentro” - mais unido e coeso - pode, a partir dessa simbiose útil, adotar conceitos de normalidade totalmente “anormais” quando confrontados com a ética da humanidade (a exemplo do nacionalismo e do etnocentrismo). Enquanto os de “fora” - desgarrados do todo e livres das amarras - podem viver a “loucura” de abraçar novos conceitos que os levem a estimular ou capitanear movimentos sociais carreados de lucidez e travestidos de mudanças. É nestes últimos que está o maior potencial de afrouxar as amarras da camisa de força da cultura, a ponto de fazê-la abarcar um conceito de “normal” mais amplo e diverso, além de mais tolerante em relação à “anormalidade”.

É dessa tensão e desse questionamento permanentes entre quem está encaixado ou desencaixado, entre quem deve ficar “dentro” e quem deve ficar “fora”, quem é útil ou não, enfim, entre quem pode e deve vestir ou se despir da camisa de força da cultura, apertando ou afrouxando suas amarras, que se dá o contexto e o ambiente para os processos de saúde ou adoecimento. 

Sendo assim, cabe aos profissionais das disciplinas sociais, em especial os que tratam da saúde mental, o papel de estabelecer, em conjunto, critérios humanizados e condutas éticas para a promoção de um trânsito fluido e organizado, além de livre de preconceitos e discriminações, entre essas duas faces dessa mesma moeda - saúde e doença.

Esse processo deve levar em consideração o lugar ocupado pelo “paciente” (ser humano) no momento da intervenção e seu universo social de origem e de destino, composto por suas relações sociais (família, amigos, colegas de trabalho, etc) e por seus papéis sociais, que precisam ser respeitados e preservados ao máximo. E deve-se tentar fazer tudo isso, independente de status ou condição financeira.

Quando se tratar de “cura”, o processo deve visar devolver ao paciente sua humanidade e sua “utilidade social”, como forma de garantir sua “reinserção”, sempre aproveitando para, de modo multidisciplinar e democrático, rever e atualizar os conceitos de “normalidade” e “loucura” sob uma ótica ampla, universal e fraterna. E para os casos de “desintegração” permanente, há que se preservar sua integridade e resgatar sua história de forma empática e ética, proporcionando a melhor qualidade de vida para o ser humano, que vem antes da doença.

Por fim, especialmente nos dias atuais que trazem novos desafios e mudanças cada vez mais rápidas advindas das novas tecnologias, há que se rever o conceito de saúde mental, entendendo-a a partir de um conceito maior - o de saúde integral. A responsabilidade pela busca dessa saúde deve ser promovida por cada indivíduo e compartilhada com a sociedade. Uma forma de se alcançar esse objetivo é promovendo-se campanhas educativas que resgatem o equilíbrio entre o corpo fisiológico (pré-histórico) e o modo de vida (moderno), capacitando e instrumentalizando as pessoas para que façam melhores escolhas em relação à sua alimentação, atividade física, sono, controle do estresse e interação com outras pessoas, tecnologias e mídias sociais. Para isso é fundamental entender a promoção e o resgate da saúde como uma missão interdisciplinar e perceber que diversos fatores contribuem para os estados de doença (mental), sobretudo o estigma e o preconceito. 

Assim, o resgate da saúde e da sanidade é uma tarefa, ao mesmo tempo, individual e coletiva, que passa pelo questionamento de tudo o que está contido na nossa camisa de força cultural e como nos incluímos ou excluímos desse espaço.

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